Depressão, na 1ª pessoa…

Primavera, há 13 anos. Lá fora o mundo estava lindo, mas dentro de mim só havia tristeza, indefinível, sem quê, nem porquê.

Naquela primeira internamento um facto ficou gravado na minha mente. O médico da janela do meu quarto, apontou-me diversos pacientes que preambulavam pelo jardim, descrevendo-me o porquê de muitas delas estarem ali. Eram pessoas que se sobressaíram em alguma actividade profissional e no entanto o destino foi o mesmo, inactivas dentro de uma clínica, enquanto lá fora a vida continuava para quem vencia a luta com sucesso, ou mesmo sem ele.

Assim, declaradamente, foi a primeira visita que ELA me fez. Durante muito tempo, ELA ficou indo e voltando. Tirava férias, mas ELA adorava esta casa, sempre voltava…

ELA é ELA porque é mais familiar. Afinal de contas, não somos tão íntimos? Então nada de formalidades. ELA, em sã consciência, nunca poderia ter sido a eleita, a amada, a querida, a companheira para este ser, ainda humano.

ELA contagia tudo ao redor do lugar escolhido para a sua morada. As plantas, os animais, os móveis, as minhas roupas, as pessoas. Mas pior, ELA ama-me de verdade, só a mim, o eleito, o privilegiado.

Quantas vezes já me perguntei, porquê eu? Há tanta gente neste mundo! Mas não questiono, foi tudo uma questão de opção d’ELA.

Colocando sob este ponto de vista, dou-me ao comodismo de atribuir culpas só a ELA, esquecendo ou omitindo a minha participação no nosso caso. Pratico um auto-hedonismo.

Dizendo assim, estarei amenizando, atenuando, o que na verdade é uma doença séria.

Quando estou com ELA, tenho por norma culpar a tudo e a todos por aquilo que me acontece. Concordo, não sou um problema, sou vítima. E nesse tempo, não tenho condições de ser eu mesmo. Falta-me tudo. Os meios que habitualmente utilizava para sobreviver estão se aniquilando. Não fazem mais efeito, quando os aplico como antes, nos mínimos detalhes, os resultados não aparecem.

Estou fragilizado, a sós, eu e ELA, o resto não importa.

ELA veio para arrasar, tornando-me um verme. Na matemática da vida, sou um zero à esquerda. Não conto, sou ignorado. Faço de conta que vivo, pois na verdade vegeto. Penso que se desligassem os aparelhos, não faria falta, ninguém notaria.

Por pouco não estou vivendo da caridade alheia: ELA é um trambolho caro e tenta porque tenta acabar com os nossos meios de subsistência, apesar de não ser vaidosa, mas também não exige. ELA não me leva ao cabeleireiro, às lojas para que eu tenha uma aparência melhor. ELA quer-me dependente, mal vestido, mal cuidado e ciumenta como é, quer-me enclausurado seja da forma que for, de preferência, confinado. Mudo, sem ter com quem conversar. Apenas posso compartilhar com ELA este amor sem fronteiras, que gira em círculos. ELA delineou um [feitiço] em torno de mim, para coexistirmos somente nós dois na tristeza desse amor fatal.

Os meus amigos, os meus parentes, a pessoa amada, o sexo prazeroso, o meu trabalho, ELA os afastou, porque não dizer que os afugentou? Impôs as suas regras, ELA quer-me submisso e eu que a odeio e a amo ao mesmo tempo, faço o seu jogo. Afinal, só ELA entende a minha auto-piedade. O seu ombro companheiro está sempre à minha espera. ELA é o máximo. Compreensiva, tem chicotes, coleiras, arreios, cabrestos, toda uma parafernália de objectos prontos para satisfazer os meus instintos sadomasoquistas. Provoca-me sangramentos no corpo e na alma, é uma parceira perfeita.

Eu pergunto-me, que mal fiz para merece-la? Sei que não somente eu faço esta pergunta, mas toda a minha família, todo um círculo de pessoas. Mesmo assim, eu tenho a resposta? Não, não tenho, porque se tivesse, ou lucidez para tal, não me teria junto a ELA, e se tivesse oportunidade há muito a teria abandonado.

Continuamos eu e ELA. Até quando? Eu diria sei lá!

Só queria que eu e ELA desaparecesse-mos e sumisse-mos para onde nem os pensamentos alcançassem. Afinal nós dois somos problemas e deles todos querem distância, portanto, fora connosco!

ELA tenta levar-me para diversos caminhos, optei pelo álcool e os remédios que só consigo nas farmácias com receita azul. “Uma mistura perfeita”. Pelo gosto d’ELA eu deveria, também, enveredar pelas drogas.

Não temos uma linha a ser seguida, ELA é mutante e eu dependo dos seus caprichos, então nada é definitivo.

Muitos já me disseram que ELA me traiu Mas os outros foram fortes, a repeliram, fizeram isto e aquilo, mas não permitiram que ELA se apossasse deles. Isto faz subentender que sou um fraco e deixei que ELA me dominasse, o que me deixa triste, na minha fraqueza, na minha penúria. Logo eu que tinha tantos planos. Eu que era equilibrado, agora estou só.

Penso que até Deus me abandonou. Tudo é caótico. Tenho a impressão de que fui alvo de uma bomba atómica e estou só no meio a esse cogumelo mortífero, sujeito a toda a sorte de desgraças. Não vejo um centímetro à minha volta, fico surdo, mudo, incomunicável, só eu e ELA. ELA faz com que tudo o que me diz respeito, dê errado.

ELA tem serviçais devotos até a morte, que incutem nos meus mais recônditos esconderijos do cérebro, fobias, pânicos de toda ordem. É horrível! Por vezes quero descer aos infernos a ter que enfrentar aglomerações de pessoas, sejam quais forem, filas, centros comercias… Não suporto ver Televisão, ouvir rádio onde os comuns mortais cantam as suas dores de cotovelo ou as suas alegrias de viver. Se eu A tenho, o que me importa o resto do mundo, se só ELA me basta?

Eu que era normalmente participativo, procurava sempre novos conhecimentos, tinha perspectivas inúmeras para a vida, hoje não quero saber de nada.

Têm acontecido tantas coisas, que me considero um vaso que caiu, despedaçou-se em estilhaços pontiagudos, prontos para ferir seja lá o que for. Não tenho mais valor, não sou mais inteiro. Passei a ser figurante, coadjuvante na vida, não brilho mais, só provoco reacções negativas.

Eu e ELA não temos necessidade de sermos vulgares, sermos comuns como os demais que vão e voltam, saem a passeio, a trabalho, o quotidiano básico. Para nós um carro é um embuste. Penso, que se eu dirigir vou ter suores por todo o corpo, a ponto de ensopar toda a roupa e isso ocorre porque ELA presenteou-me com o pânico. Se insisto em pegar no volante, lembro-me dos efeitos colaterais. Os meus reflexos podem estar muito lentos, posso estar irritado. Enfim um carro em minhas mãos pode se tornar uma arma.

Para os problemas que aparecem, não tenho soluções, vou somando um a um. No final não tenho problemas pequenos, isolados, tenho um só, enorme. Sinto-me um Atlas carregando o mundo nas costas. É um fardo muito pesado, está além das minhas forças e esmaga-me.

Situei-me, não gosto de ninguém e ninguém gosta de nós.

Estamos de mal com o resto do que existe, pois todos são injustos para connosco. Assim prefiro alienar-me a ter que conviver com pessoas tão más. Prefiro ELA.

Na minha fragilidade, tornei-me vulnerável a qualquer tipo de ataque, não tenho como defender-me. Por isso, eu e ELA, mesmo a contra gosto, somos cercados de pessoas para nos ajudar, pois mesmo sendo agressivos, temos má pontaria. Nunca acertamos o alvo. Por vezes eu e ELA ficamos eufóricos, sonhamos grande.

Tornamo-nos poderosos. Aí somos perigosos, capazes de praticar os piores desatinos, afinal somos mutantes. Nesse ponto o nosso barco, que julgávamos navegar em águas tranquilas, mete água. Afundamos e estamos novamente imersos na escuridão. Uma nau à deriva, sujeitos a ventos e tempestades.

Solitariamente, eu e ELA, a minha inseparável companheira.

Aquela de ombros fortes, onde constantemente derramo as minhas lágrimas, aos pés daquele ouvido que escuta as minhas lamúrias, e como o faço! Afinal não tenho pouco a reclamar. Sou um pobre coitado que perdeu tudo e a todos, principalmente a vontade de viver, o que antes me parecia o mais essencial, tanto quanto o ar que respirava.

O pior é quando sinto que as pessoas estão pensando que estou criando situações ilusórias, problemas inexistentes. Que eles não existem, que não passam de doença de quem não tem o que fazer, que é o diabo a fazer moradia numa mente desocupada. Enfim, é um fanico puro. Constato, por força de circunstâncias, que profissionais da área médica não versados no assunto da psique humana, também, às vezes pensam assim.

Impossível? Não. E por falar na categoria médica, eu e ELA já conhecemos diversos. Com alguns nos demos bem, com outros pessimamente. Por certo não me acharam um caso interessante em comunhão com ELA ou não encontraram um remédio, ou aconselhamentos para que nos pudéssemos sentir melhor.

Muitas vezes nos afastamos deles simplesmente porque os achamos desinteressados no nosso caso, tão inequivocamente mais rico que os demais casos. Nós, eu e ELA, nos consideramos mais interessantes, não somos para o entendimento de qualquer um. Assim, jogamos na retaguarda, camuflamos a verdade, o que torna ainda mais difícil o regresso à realidade da vida.

Não é incomum sentir-me um paranóico junto aos demais acompanhantes desse planeta Terra. Eles [os médicos] não conseguem enxergar-me apenas triste, desanimado para viver. Não me sinto parte de uma minoria, sinto-me só em mim mesmo.

Ouço os incautos que me dizem: saia; faça uma viagem, trabalhe com mais garra, vá a uma igreja, troque de médico, deixe os problemas de lado, esqueça-os e coisas assim. A minha doença para essas pessoas é como um simples trocar de roupa.

É como se trocando de remédios, ou mesmo parando de tomá-los, ficasse bom.

Mas na apatia que ELA me deixa, ainda consigo lembrar que tenho dois ouvidos; um para entrar, outro para sair, e quando esses conselhos valem a pena, lembro-me que entre eles tenho um cérebro, ainda que com problemas, capaz de armazenar as informações que julgo úteis. Parafraseando: Eu não sei o caminho para o sucesso; mas, sem dúvida, o caminho para o fracasso é agradar a todos, no mundo.

Assim como uma Fénix, estou a tentar renascer das cinzas, sair do fundo do poço profundo e sombrio.

Como “cada caso é um caso”, a minha abordagem é ampla, sem contudo, ter a presunção de um tratado médico.

Você sendo essa outra pessoa, é bom que saiba a opinião do Dr. Jeffrey Lynn – “Em geral esse mal atinge os mais ambiciosos, criativos e escrupulosos”. Como nada há de errado em enquadrar-se nesse perfil, o nosso objectivo é que volte a ser ambicioso, criativo e escrupuloso, mas policiando-se para não chegar aos extremos e sofrer com as suas consequências.

Pirineus de Sousa, no livro Quando a Depressão Ataca

Dedicatória: Àqueles que conseguiram, ou conseguirão transformar o cenário de suas vidas, do cinza para as cores do arco-íris.

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